Resenha de "O Prisioneiro do Céu" (Carlos Ruiz Zafón)

Título: O Prisioneiro do Céu
Autor: Carlos Ruiz Zafón
Editora: Suma de Letras
Skoob: Adicionar

Sinopse: Barcelona, 1957. Daniel Sempere e seu amigo Fermín, os heróis de A sombra do vento, estão de volta à aventura para enfrentar o maior desafio de suas vidas. Já se passa um ano do casamento de Daniel e Bea. Eles agora têm um filho, Julián, e vivem com o pai de Daniel em um apartamento em cima da livraria Sempere e Filhos. Fermín ainda trabalha com eles e está ocupado com os preparativos para seu casamento com Bernarda no ano-novo. No entanto, algo parece incomodá-lo profundamente. Quando tudo começava a dar certo para eles, um personagem inquietante visita a livraria de Sempere em uma manhã em que Daniel está sozinho na loja. O homem misterioso entra e mostra interesse por um dos itens mais valiosos dos Sempere, uma edição ilustrada de O conde de Montecristo que é mantida trancada sob uma cúpula de vidro. O livro é caríssimo, e o homem parece não ter grande interesse por literatura; mesmo assim, demonstra querer comprá-lo a qualquer custo. O mistério se torna ainda maior depois que o homem sai da loja, deixando no livro a seguinte dedicatória: "Para Fermín Romero de Torres, que retornou de entre os mortos e tem a chave do futuro". Esta visita é apenas o ponto de partida de uma história de aprisionamento, traição e do retorno de um adversário mortal. Daniel e Fermín terão que compreender o que ocorre diante da ameaça da revelação de um terrível segredo que permanecia enterrado há duas décadas no fundo da memória da cidade. Ao descobrir a verdade, Daniel compreenderá que o destino o arrasta na direção de um confronto inevitável com a maior das sombras: aquela que cresce dentro dele. Transbordando de intriga e emoção, O prisioneiro do céu é um romance em que as narrativas de A sombra do vento e O jogo do anjo convergem e levam o leitor à resolução do enigma que se esconde no coração do Cemitério dos Livros Esquecidos.

E tem como não amar esse livro? Tem como não amar esse autor? Jesus, eu já estou órfã dele, porque nesse exato momento em que escrevo essa resenha, também estou lendo o último volume dessa série, e de um jeito bem lento para não precisar me despedir agora. Não estou pronta para isso, gente!

Acompanho Záfon há muito mais de oito anos. Lembro que foi mais ou menos na época em que perdi minha filha que ganhei o primeiro livro dele, A Sombra do Vento, e de lá para cá eu li simplesmente tudo o que lançou. Tudo mesmo! Ele é um dos meus prediletos e eu leria até bula de remédio. A Sombra do Vento me fisgou na época ao ponto de que quando terminei a primeira leitura, precisei voltar e ler tudo de novo, e li umas 3 ou 4 vezes desde então. Sou apaixonada por aquele livro! 

O autor diz que os livros são independentes, mas acho uma judiação dizer isso a um leitor atento. Acredito sim que eles devem ser lidos na sequência correta e acho que deveria ser a sequência que eu li. Cronologicamente com a história, O Jogo do Anjo viria antes, mas ele é um livro pesado - o mais pesado da série - e existe possibilidade de desistência se começar por ele. Acredito que ler A Sombra do Vento, O Jogo do Anjo e ir daí para Prisioneiro do Céu e Labirinto dos Espíritos seja a melhor maneira de entender a história enorme e incrível dessas pessoas. 

Nesse volume o foco maior é em Fermin, que é um personagem único na minha biblioteca mental até hoje. Ele é divertidíssimo e quem vê não sabe o que o coitado passou para chegar até ali e com aquele humor. Talvez por causa daquele humor ele chegou onde chegou. Outra pessoa teria enlouquecido. 

Se em A Sombra do Vento temos uma pincelada de quem é esse personagem, ele se revela totalmente em Prisioneiro do Céu. Eu  vejo muito esse livro como um fôlego antes do mergulho, saca? Ele foi necessário para ligar os pontos que eu não via como ter ligação na história dos Sampere. Já senti esse brilhantismo com O Jogo do Anjo e o depressivo David Martin. Mas foi nesse volume que percebi que meu amor por Zafón não é infundado. Tem motivo e um dos grandes. Ele é um brilhante construtor de enredos. 

Então sim, esse livro serve para preparar o terreno para a finalização da série do Cemitério dos Livros Esquecidos. Ele tem os fatos que levaram Fermín até Daniel, e depois que a gente entende fica de olhos marejados. Da dedicação e do amor empregados em uma única promessa, saca? Já disse que esse autor é brilhante? Ele é brilhante! 

Não posso dizer mais dessa história sem revelar demais, e talvez esse não seja meu livro predileto até o momento, porque A Sombra do Vento me apresentou a esse mundo e tenho uma ligação muito forte com ele, mas garanto que você vai crescer como leitor de Zafón depois dele, e se apaixonar mais ainda por Fermin e Daniel. 


Resenha de "Cidade dos Anjos Caídos" (Cassandra Clare)

Título: Cidade dos Anjos Caídos
Autor: Cassandra Clare
Editora: Record
Skoob: Adicionar

Sinopse: A guerra acabou e Caçadores de Sombras e integrantes do submundo parecem estar em paz. Clary está de volta a Nova York, treinando para usar seus poderes. Tudo parece bem, mas alguém está assassinando Caçadores e reacendendo as tensões entre os dois grupos, o que pode gerar uma segunda guerra sangrenta. Quando Jace começa a se afastar sem nenhuma explicação, Clary começa a desvendar um mistério que se tornará seu pior pesadelo.



Depois de ler esse livro fiquei pensando se meu tempo com essa série já não findou. Que apesar de amar com todas as forças Peças Infernais, eu tenho uma birra secular com Instrumentos Mortais que achei que não precisaria dar crédito depois que acabei o que chamamos de "primeiro trilogia dela", que para mim foi bacana na época em que li, e hoje já não sei mais porque gostei tanto. Porque ler essa segunda trilogia anda sendo um parto para mim, e que só estou lendo porque quero começar a ler Artifícios das Trevas e preciso terminar essa budega antes. 

O foco nesse volume é menos em Jace e Clary e mais voltada para Simon, e talvez por isso tenha sido um pouco mais fácil de ler do que está sendo o quinto volume. Gosto de Simon. Na verdade gosto muito de Simon. Certamente a pessoa que mais gosto nessa bagaça inteira. 

Não vou ter cuidado com o que digo aqui em relação a spoiler dos livros anteriores porque se você está lendo essa resenha, acredito que tenha lido os três outros. Né? Se não leu, procura as outras resenhas por aqui. Aliás, vou deixar linkadas abaixo dessa resenha. 

Simon é um vampiro, e foi marcado por Clary com um desenho que o torna praticamente inatingível. Achei isso simplesmente um máximo! Aquela coisinha pequena perto dos demais se torna grandioso de maneira gradativa sem parecer condescendente, como Jace é e que me deixa muito irritada. O vampirinho é simples e genial. Tem as melhores piadas, é inteligente, charmoso do jeito dele e tem uma maneira única de se relacionar com os demais ao redor. 

Nesse volume vemos a repercussão dele sendo um vampiro depois da bagunça final da batalha em Idris. As coisas se acalmando, e bate a real do que ele é e do que nunca vai ser. A reação da família e os casos amorosos com suas duas namoradas (que não sabem uma da outra). Tudo isso e mais uma pessoa que aparece para tentar Simon, coloca meu vampirinho predileto em xeque o tempo inteiro. Ainda assim, ele nunca sai do salto. 

Apesar de ter um foco enorme nele, não é só ele que vai dar vez a essa história. Claro que a autora dá um jeito de enfiar Clary e Jace em muitos momentos, inclusive criando a abertura da trama do próximo volume, onde ela mescla esse vai e vem de personagem com muita naturalidade. 

Penso que Cassandra tem um dom maravilhoso de tirar mais histórias dentro de suas histórias do seu próprio universo. Quando a gente acha que mais nada pode vir dos Caçadores de Sombra, ela aparece com pontas pequenas que deixou solta e que são capazes de ser tornar pontas enormes em próximos livros. Sou fã disso nela. E apesar de achar que talvez eu não tenha mais idade (oi?) para os livros da autora, tenho um carinho muito enorme pelo o que conquistei como leitora de fantasia ao lado dos livros dela, e por isso continuo e vou ler tudo o que ela lançar. Deus abençoe a cabeça dessa mulher! 

Meu livro predileto ainda é Cidade de Vidro, mas até que gostei da forma como ela iniciou esse outro ponto para uma nova trama. Simon era o melhor lugar para continuar, ao meu ver. E vamos seguindo, terminar essa série até no máximo março.

#1 - Cidade dos Ossos
#2 - Cidade das Cinzas
#3 - Cidade de Vidro

Resenha de "No Limite da Ousadia" (Katia McGarry)

Título: No Limite da Ousadia
Autor: Katie McGarry
Editora: Verus
Skoob: Adicionar

Sinopse: No limite da ousadia conta a história de Beth Risk, a amiga durona de Noah, de No limite da atração. Este livro é um spin-off, passando-se no mesmo universo do primeiro, com participações especiais de Isaiah, Noah e Echo.Se você já é fã de No limite da atração ou está descobrindo este mundo agora, certamente vai se deixar envolver pela paixão perigosa e arrebatadora de Beth e Ryan.
Beth é uma garota durona e tatuada que precisa cuidar da mãe drogada. Quando ela assume um crime para salvar a mãe, seu tio, um rico esportista aposentado, consegue a guarda da sobrinha e a leva para começar uma vida nova na cidadezinha do interior em que ele mora. E assim Beth se vê morando com uma tia que não a quer e frequentando uma escola onde ninguém a compreende. Exceto um único cara, que não poderia ser mais diferente dela...
Ryan é o menino de ouro — um badalado jogador de beisebol, filho de um dos casais mais influentes da cidade. Ele e seus amigos gostam de fazer apostas envolvendo desafios que devem cumprir, e Ryan nunca perde. Por fora o atleta popular que todo mundo adora, ele está prestes a aprender que nem tudo é o que parece.
O que começa como uma aposta se torna uma atração irresistível que nem Beth nem Ryan haviam previsto. Sem se dar conta, o cara perfeito vai arriscar seus sonhos — e sua vida — pela garota que ama. E ela, que não deixa ninguém se aproximar, vai se desafiar a apostar todas as fichas nesse amor.
Com aparições de Noah, Echo e Isaiah, de No limite da atração, este livro conta a história de um amor que vai se construindo aos poucos, num jogo sedutor de vulnerabilidade e confiança.

Não sei porque demoro tanto para ler os livros dessa autora. Eu adoro tudo o que ela faz! Amei No Limite da Atração, e também me apaixonei por No Limite da Ousadia. Talvez um pouco menos por esse do que pelo outro, mas ainda assim valeu cada página lida - e olhe que é um livro grande. Foi uma delícia rever os personagens que amei no primeiro volume. 

Se você leu o primeiro livro, certamente sabe quem é a Beth. A amiga linha dura de Noah. É sobre ela que esse livro vai focar, quando a garota deixar de morar no porão de sua tia e passa a viver com o tio famoso e ex jogador de beisebol. Uma vida muito mais confortável do que ela estava acostumada, mas não por isso mais fácil. Nova cidade, nova escola, novas pessoas, inclusive Ryan, um aspirante a jogador profissional de beisebol e um dos carinhas populares do colégio. 

Claro que existe aquela animosidade entre o casal a princípio. Beth é durona e Ryan é bem cheio de si. Isso gera uma quantidade enorme de problemas envolvendo os dois. Em muitos momentos me lembrou a relação de cão e gato de Lorena e Klaus em A Mais Bela Melodia. 

Eu gosto da construção de relacionamentos da autora. Ela foca no social dos adolescentes ferrados que cria sem perder a essência de que ainda são adolescentes, e isso é bem vívido nesse livro, observando Beth, que é muitooooo ferrada, se envolver com situações tão normais em uma escola nova. As vezes a gente só precisa sair de um lugar para a vida começar a melhorar. 

Ainda que ela se afaste de algumas coisas do passado, a menina não consegue fugir da mãe - o eterno problema da vida dela. Isso era até meio irritante. Sei que era mãe, mas puta que pariu, a mulher só ferrava com ela e ainda assim Beth estava sempre por perto. A única coisa boa dela ter esse laço grande com o passado é a ligação que tem com Noah e Isaiah, que acho uma das relações de amizade mais doentes e incríveis da literatura. Entenderam o que quis dizer com isso? Não, né? Tem que ler para entender. Não é algo que se explique. 

Ryan também não é o garoto perfeitinho que faz parecer. A casa dele é uma loucura constante, e a cobrança é pesada, graças ao que aconteceu ao seu irmão e que é um dos grandes mistérios no começo do livro. Como temos POV duplo com os dois personagens, entendemos a logistica de suas vidas separadas e o quanto eles precisavam um do outro para que pudessem segurar as pontas do que quer que fosse. 

Enfim, não estou tão ansiosa pelo livro de Isaiah, porque já me falaram que é o mais fraco da série, e porque pessoalmente não sou tão maluca pelo carinho, mas o lerei mesmo assim, porque acho Katie muito diva criando casais e cenas românticas, e sei que não vou perder 100% do meu tempo lendo um livro dela. 

Resenha de "Novembro 9" (Colleen Hoover)

Título: Novembro 9
Autor: Colleen Hoover
Editora: Galera Record
Skoob: Adicionar

Sinopse: Autora número 1 da lista do New York Times retorna com uma história de amor inesquecível entre um aspirante a escritor e sua musa improvável.Fallon conhece Ben, um aspirante a escritor, bem no dia da sua mudança de Los Angeles para Nova York. A química instantânea entre os dois faz com que passem o dia inteiro juntos – a vida atribulada de Fallon se torna uma grande inspiração para o romance que Ben pretende escrever. A mudança de Fallon é inevitável, mas eles prometem se encontrar todo ano, sempre no mesmo dia. Até que Fallon começa a suspeitar que o conto de fadas do qual faz parte pode ser uma fabricação de Ben em nome do enredo perfeito. Será que o relacionamento de Ben com Fallon, e o livro que nasce dele, pode ser considerado uma história de amor mesmo se terminar em corações partidos?

Aconteceu algo muito peculiar com a minha leitura com esse livro. O primeiro arquivo que peguei dele, veio com algum tipo de defeito. Ele começa exatamente pela grande revelação da história. Quando percebi que tinha algo de errado com o que estava lendo, já era tarde demais. Ou seja, quando peguei o arquivo correto, já sabia o que tinha acontecido, e isso quebrou um pouco da magia sempre presente quando leio os livros da Colleen. 

Nesse livro começamos conhecendo Fallon, que é filha de ator, ex atriz atriz, e que tem uma deformação provocada por uma queimadura no corpo, o que faz com que as pessoas não acreditem muito que ela tenha futuro na carreira do teatro. Principalmente seu pai. Então o começo do livro são eles dois conversando em um restaurante, e meio que se despedindo, já que Fallon vai sair da cidade para tentar a profissão na Broadway. Só que alguém se intromete no diálogo cheio de amargura de pai e filha e salva Fallon do constrangimento. Esse é o Ben. E estamos no dia 9 de novembro, o mesmo dia onde Fallon sofreu o acidente que prejudicou sua carreira alguns anos atrás. 

Depois de um dia inteiro juntos e numa intensidade imensa, eles marcam de se encontrar no mesmo dia, todos os anos. Sem troca de telefone, sem troca de contatos em redes sociais. Só a surpresa do ano seguinte. E assim é feito. Ano após ano, com vários problemas, com muita emoção, Fallon e Ben crescem como casal de maneira lenta e forte. 

Os casais da Collen são simplesmente adoráveis e críveis. Toda vez que leio um livro dela eu me apaixono por essas novas pessoas. Gosto de personagens intensos, e isso tem de sobra nos livros dessa diva. Ben e Fallon são maravilhosos juntos, e ésó o que a gente conhece deles, já que raramente temos momentos dos dois separados. Não é como muitos livros desse tipo que a gente vê como funciona a vida individual mesmo quando estão longes. Aqui é Ben e Fallon juntos. Sempre. 

Existe um grande acontecimento na história que vai moldar as decisões deles. E é um big acontecimento. Como eu peguei esse spoiler antes do livro começar, não foi a surpresa que eu gostaria que tivesse sido, mas ainda assim foi forte para mim. Muito forte. 

Esse não é meu livro predileto da Colleen. Tenho um amor maluco por Maybe Someday. Mas ainda acho que é uma história grandiosa, do tipo que aquece o coração, saca? Com ele eu fiz as pazes com a autora, porque tive sérios problemas com O Lado Feio do Amor e achei que não leria Colleen nem tão cedo. Vou seguir lendo, torcendo para que encontre mais livros do tipo Novembro 9, com os personagens incríveis e uma história aparentemente simples que se torna enorme. 

Resenha de "Não me abandone jamais" (Kazuo Ishiguro)

Título: Não me abandone jamais
Autor: Kazuo Ishiguro
Editora: Cia de Letras
Skoob: Adicionar

Sinopse: Kathy, Tommy e Ruth são clones criados para doar órgãos. Tendo esse cenário de ficção científica por pano de fundo, e o triângulo amoroso como gancho, Kazuo Ishiguro fala de perda, de solidão e da sensação que às vezes temos de já ser "tarde demais". Finalista do Man Booker Prize 2005. Kathy H. tem 31 anos e está prestes a encerrar sua carreira de "cuidadora". Enquanto isso, ela relembra o tempo que passou em Hailsham, um internato inglês que dá grande ênfase às atividades artísticas e conta, entre várias outras amenidades, com bosques, um lago povoado de marrecos, uma horta e gramados impecavelmente aparados. No entanto esse internato idílico esconde uma terrível verdade: todos os "alunos" de Hailsham são clones, produzidos com a única finalidade de servir de peças de reposição.
Assim que atingirem a idade adulta, e depois de cumprido um período como cuidadores, todos terão o mesmo destino - doar seus órgãos até "concluir". Embora à primeira vista pareça pertencer ao terreno da ficção científica, o livro de Ishiguro lança mão desses "doadores", em tudo e por tudo idênticos a nós, para falar da existência. Pela voz ingênua e contida de Kathy, somos conduzidos até o terreno pantanoso da solidão e da desilusão onde, vez por outra, nos sentimos prestes a atolar.

Esse foi um dos raros casos em que vi o filme antes de ler o livro. E se ao final do filme me senti fisicamente mal de tão triste que é, ao final do livro entrei numa ressaca horrorosa que durou muitos dias, porque é igualmente triste. E nem foi porque achei o livro genial, mas porque ele fala de temas fortes e que pessoalmente me deixam depressiva. 

A gente conhece a Kathy, que é essa mulher que trabalha como cuidadora. Logo no início você vai entendendo como era a infância dela vivendo em um internato ao lado dos amigos, e o momento em que eles descobrem que são clones. Foram criados unicamente para que seus órgãos possam ser usados por outras pessoas. Sem expectativa de vida alguma além do tempo que o corpo vá levar para definhar depois de tantas doações. 

E aos poucos a protagonista vai nos contando sua jornada desde quando criança até a fase adulta. Tudo o que ela ansiou, tudo o que descobriu e o que sentiu nesse tempo. O quanto pensou em lutar contra isso, e quão inútil era tentar. 

Essa história me faz lembrar muito de A Ilha. A mesma proposta de um grupo de pessoas criadas unicamente para servir as necessidades de outras, quando se ignora por completo que essas pessoas criadas também tem sentimentos. Na ideia de A Ilha, é preciso que se tenha vivências humanas para que o corpo sobreviva e os órgãos tenham utilidade. Acho que a ideia é semelhante ao de Não me Abandone Jamais. Não basta um pulmão criado em laboratório. A diferença é que nesse livro eles sabem disso desde o princípio, e isso gera anos de tristeza e depressão. 

A morte é uma coisa com a qual não lido bem. Em hipótese alguma eu lido bem com ela. Então evito todos os livros que tenham essa temática. Infelizmente não estou preparada para me despedir de ninguém, inclusive personagens de livros. E é muito triste ver que eles estão indo aos poucos. É como se arrancassem pedaços do leitor pouco a pouco, como fizeram com os personagens. 

Ainda que eu adore a ideia do livro em geral, e de como o autor trabalhou com delicadeza tudo isso pelos olhos sensíveis de Khaty, eu achei o ritmo desse livro extremamente lento. Ele não tem picos de acontecimento, e isso cansa pra cacete o leitor. Ao ponto de me pegar dormindo com frequência quando sentava para lê-lo. Isso me fez tirar estrelas dele. Esperei um pouco de luta por parte desses doadores, mas isso não acontece. A luta aqui é interna, e isso gera um desconforto em quem lê. Do tipo... Como deve ser horrível viver sem esperança de nada. 

Enfim, é um livro forte, que levanta questionamentos fortíssimos sobre existência e o que você faria para se salvar e salvar alguém que ama ( e aqui me coloco no lugar de quem receberia um órgão de uma pessoa assim). O quanto somos selvagens em comunidade, ainda que nos julguemos civilizados. 


Resenha de "O Ódio que você semeia" (Angie Thomas)

Título: O Ódio que você semeia
Autor: Angie Thomas
Editora: Galera Record
Skoob: Adicionar

Sinopse: Uma história juvenil repleta de choques de realidade. Um livro necessário em tempos tão cruéis e extremos.Starr aprendeu com os pais, ainda muito nova, como uma pessoa negra deve se comportar na frente de um policial.
Não faça movimentos bruscos.
Deixe sempre as mãos à mostra.
Só fale quando te perguntarem algo.
Seja obediente.
Quando ela e seu amigo, Khalil, são parados por uma viatura, tudo o que Starr espera é que Khalil também conheça essas regras. Um movimento errado, uma suposição e os tiros disparam. De repente o amigo de infância da garota está no chão, coberto de sangue. Morto.
Em luto, indignada com a injustiça tão explícita que presenciou e vivendo em duas realidades tão distintas (durante o dia, estuda numa escola cara, com colegas brancos e muito ricos - no fim da aula, volta para seu bairro, periférico e negro, um gueto dominado pelas gangues e oprimido pela polícia), Starr precisa descobrir a sua voz. Precisa decidir o que fazer com o triste poder que recebeu ao ser a única testemunha de um crime que pode ter um desfecho tão injusto como seu início.
Acima de tudo Starr precisa fazer a coisa certa.
Angie Thomas, numa narrativa muito dinâmica, divertida, mas ainda assim, direta e firme, fala de racismo de uma forma nova para jovens leitores. Este é um livro que não se pode ignorar.

Tem livros que conversam com pessoas específicas. Que uma parte dos leitores gostam, e uma parte tende a odiar. O Ódio que Você Semeia é do tipo atípico onde eu procuro uma única pessoa que não tenha gostado desse livro, e simplesmente não encontro. Porque ainda que ele possa ter uma ou outra coisa não tão legal, ele é composto em sua maioria de outras tantas incríveis. 

O livro já começa nos mostrando um pouco do social onde Starr vive. Grupo de jovens negros em uma festa negra e em um bairro de negros, o que quase sempre termina em briga e pessoas fugindo para todos os lados, porque uma briga por ali certamente acaba em tiros, seja dos jovens ou da polícia. 

Ela sai da festa acompanhada de seu amigo, Khalil, e que no caminho de casa acabam sendo abordados por um policial, que, numa confusão de entendimento, atira no garoto e o mata. Isso deixa Starr completamente abalada por bastante tempo. Até ela começar a entender a responsabilidade que tem nas mãos, já que o policial vai ser investigado pela morte do menino. Ele alega que atirou em legítima defesa, mas Starr sabe que simplesmente agiu por impulso e movido ao preconceito contra os negros. 

Falando assim parece que o livro vai focar em ativistas raciais, e isso não é de um todo verdade. Creio que o foco dessa história é como a morte desse amigo vai pesar nas costas de Starr, e não apenas por ter perdido aquele amigo em específico, mas por entender que esse tipo de situação é recorrente no meio onde vive. Em constante vigilância, por medo de que uma bala perdida a atinja, ou uma bala que não era perdida, e que ainda assim poderia não pertencer a ela pragmaticamente falando. E o pior, é que ela está acostumada com essa rotina. Todos eles estão, mas será que isso quer dizer que é o certo? Será que essa responsabilidade é boa? Afinal, que poder uma única pessoa tem de mudar um sistema inteiro?

Essa situação racial pesada que os EUA ainda hoje vive é muito bem retrata não só em livros como em filmes. Tem um específico que amo chamado Escritores da Liberdade, e que fala um pouco sobre essa divisão de gangues. No caso daquele filme o foco não são os negros, mas dá para entender como a cabeça deles funciona. Como dentro de cada gangue existe um universo inteiro e regras mais rígidas do que em escola da década de 50. Matar pode ser a única saída para não morrer, e quando o assunto é nossa sobrevivência, vale tudo, meu amigo. 

Se comparar com o que acontece no Brasil, somos samba de gafieira perto da logística cultural negra deles. Não que aqui não haja racismo, mas na maioria das vezes acaba em frevo, saca? Somo um país bem mais diversificador racialmente, e isso é refletido no tanto de preconceito que existe. A comunidade negra aqui é grande demais para que seja excluído da maneira que eles são nos EUA. Ou o brasileiro é preguiçoso demais para pensar muito sobre dividir uma sociedade por causa da cor da pele. Existem diferenças sociais enormes, e com gangues no meio - vide favelas - mas lá tem de tudo quanto é cor. O que você tem no bolso pesa mais por aqui do que a melanina no seu braço. 

O Ódio que você semeia é um livro que te coloca para pensar. Sem grandes acontecimentos no decorrer da trama, até porque ele já começa com um grande acontecimentos, vamos vendo o dia a dia da família de Starr, e seu relacionamento com as pessoas do colégio de brancos onde estuda. O choque cultural que é quando ela vê a vida das amigas e compara com a sua própria. Não que ela reclame, porque Starr passa longe de ser uma menina birrenta, mas a faz pensar sobre quem ela é para o mundo e para aquelas pessoas que maquiam uma realidade que na verdade não existe fora da escola. 

Eu poderia passar um dia aqui falando sobre o quão incrível foi esse livro. A ideia real e palpável dele, a forma como a autora trabalhou com delicadeza as nuances possíveis e verdadeiras de quem vive essa realidade, todos os personagens que cercam Starr o tempo inteiro (principalmente o pai dela, que passou um tempo numa prisão, tem uma visão bem fechada sobre algumas coisas, mas ainda assim é um puta pai). Enfim, não há muito o que me queixar aqui. 

Mas, como sou uma pessoa bem chata, eu senti que o final pedia um pouco mais. Ele passa longe de ser ruim, ok? Mas ele vai gerando um crescente incrível e de repente estaciona geral e de maneira pouco conclusiva. Pode ter sido ideia da autora? Sim, pode, mas isso me incomodou ao ponto de procurar mais páginas ou um epílogo onde não existiam. Fora isso, o livro é escandaloso de bom. 

Sobre ter o título no original na capa do livro, achei genial depois que li e entendi o que significava esse título para a história, e para entender um pouco de Khalil, porque quando o autor é foda basta uma sigla para te entregar um personagem inteiro. <3

Muito, muito bom!


Resenha de "Uma Tocha na Escuridão" (Sabba Tahir)

Adicionar legenda
Título: Uma Tocha na Escuridão
Autor: Sabaa Tahir
Editora: Verus
Skoob: Adicionar

Sinopse: O segundo livro da história épica e eletrizante sobre liberdade, coragem e esperança. Ambientado em um mundo brutal inspirado na Roma Antiga, "Uma Chama Entre as Cinzas" contou a história de Laia, uma escrava lutando por sua família, e Elias, um soldado lutando pela liberdade. Agora, em "Uma Tocha Na Escuridão", ambos estão em fuga, lutando pela vida. Após os eventos da quarta Eliminatória, os soldados marciais saem à caça de Laia e Elias enquanto eles escapam de Serra e partem numa arriscada jornada pelo coração do Império. Laia está determinada a invadir Kauf, a prisão mais segura e perigosa do Império, para salvar seu irmão, cujo conhecimento do aço sérrico é a chave para o futuro dos Eruditos. E Elias está determinado a ficar ao lado dela - mesmo que isso signifique abrir mão da própria liberdade. Mas forças sombrias, tanto humanas quanto sobrenaturais, estão trabalhando contra eles. Elias e Laia terão de lutar a cada passo do caminho se quiserem derrotar seus inimigos: o sanguinário imperador Marcus, a cruel comandante, o sádico diretor de Kauf e, o mais doloroso de todos, Helene - a ex-melhor amiga de Elias e nova Águia de Sangue do Império. A missão de Helene é terrível, porém clara: encontrar o traidor Elias Veturius e a escrava erudita que o ajudou a escapar... e acabar com os dois. Mas como matar alguém que você ama desesperadamente?


Um século depois que li o livro, resolvi desencalhar essa resenha. Na época em que li não conseguia articular as ideias de maneira que me deixasse feliz, afinal esse foi um dos grandes livros do ano e todo grande livro é difícil de resenhar. Mas hoje, relendo os trechos que marquei e sorrindo a toa, percebo que mandar minhas ideias de maneira aceitável é melhor do que não mandar de maneira alguma. Porque essa série da Sabba precisa ser conhecida pelo mundo, e também sou responsável por propagar isso. 

Como se trata de um livro do meio, não tenho como falar muito sobre o que acontece neles para vocês. Entendam que o primeiro terminou de forma desesperadora, e que esse segue exatamente onde aquele parou, na fuga de Elias e Laia para salvar o irmão dela. 

Se eu amei o primeiro livro porque a autora me apresentou um mundo muito bem construído e visto pelos olhos incríveis dos dois protagonistas, eu amei esse aqui porque ela expandiu ambos: tanto o mundo, quanto Elias e Laia. É visível o crescimento deles dois ao longo da jornada do herói, e o quão ligados ficamos ao universo geográfico e cultural criados pela autora. 

Não há um minuto para recuperar o fôlego nessa história. É uma porrada atrás da outra, e daquele tipo que te tira do chão e te faz dizer um ou dois palavrões. Não há como negar que a autora tem uma facilidade impressionante de fazer ligações incríveis entre coisas e pessoas. Não só tem o dom da escrita, como de construção de enredo, e isso anda sendo difícil de achar em autores de fantasia. 

O relacionamento de Elias e Laia é uma das coisas mais deliciosas dessa história. E quando me refiro a relacionamento não necessariamente me refiro ao contexto homem/mulher, mas a amizade que eles criam. Porque no primeiro livro vemos isso começar a se formar, e com muita desconfiança de ambas as partes. Nesse ela se firma com vontade, não abrindo espaço para mais ninguém entre eles. São aliados, amigos e porque não dizer, apaixonados. 

Gosto de fantasias com coadjuvantes necessários, e certamente que temos alguns deles aqui. Do tipo que você tenta entender seus objetivos e até torce por eles, por mais que estejam no "lado negro da força". E no caso de Uma Tocha na Escuridão, temos o ponto de vista extra de Helene, o que me deixa de orelha em pé ao que a autora vai fazer com ela mais lá na frente, já que está dando essa importância toda. Acredito que inserir esse POV se deva muito a nos fazer ver como anda o avanço do outro lado da história, mas ainda assim estou receosa. 

Ainda não sou fã de Laia, que é meio "mimada" demais para alguém que passou pelo o que ela passou. Mas meu amor por Elias supera e muito meu "não amor" por Laia. Então está tudo certo. 

O final desse livro deixa um gostinho de quero mais. Algo que queríamos desde o início acontece em relação a Laia, e algo inesperado em relação a Elias também, o que me faz pensar sobre o futuro desse personagem, e como ele vai fazer para se livrar do imbé em que colocou. Só Sabba sabe como será isso, mas no momento queria ser uma mosquinha rodando pela cabeça dela. 

Enfim, esperando ansiosa pelo próximo volume da série. Se a autora fizer com ele o que fez com os outros dois, tenho certeza de que vou adorar. 

Mapa Mental para Escritores


Bom dia, pessoal!
Hoje trago para vocês um vídeo que gravei falando como funciona a primeira parte do meu processo como escritora depois que tenho a ideia de um livro, que é o temível mapa mental.

Mapa mental, ou mapa da mente é o nome dado para um tipo de diagrama, sistematizado pelo psicólogo inglês Tony Buzan, voltado para a gestão de informações, de conhecimento e de capital intelectual; para a compreensão e solução de problemas; na memorização e aprendizado; na criação de manuais, livros e palestras; como ferramenta de brainstorming (tempestade de ideias); e no auxílio da gestão estratégica de uma empresa ou negócio.Os mapas mentais procuram representar, com o máximo de detalhes possíveis, o relacionamento conceitual existente entre informações que normalmente estão fragmentadas, difusas e pulverizadas no ambiente operacional ou corporativo. Trata-se de uma ferramenta para ilustrar ideias e conceitos, dar-lhes forma e contexto, traçar os relacionamentos de causa, efeito, simetria e/ou similaridade que existem entre elas e torná-las mais palpáveis e mensuráveis, sobre os quais se possa planejar ações e estratégias para alcançar objetivos específicos.

Usado inicialmente em empresas e nos estudos, o mapa mental auxilia ao leitor a sintetizar as ideias de forma melhor absorvida pelo cérebro, que torna visual o conteúdo que até então era decoreba, fazendo com que sua absorção fique mais fácil e didática. 
O mapa mental é uma técnica muito útil não só para estudar, mas para resenhar livros - uso bastante com livros mais complexos - e para escritores que querem montar uma espinha de suas histórias. Isso foi interessante para mim, então resolvi mostrar a vocês como começo. 
Lembrando que o mapa mental é minha primeira ação depois que tenho uma ideia sobre um livro. 


Para pirar o cabeção! Série "Dark"



Sinopse: A história acompanha quatro diferentes famílias que vivem em uma pequena cidade alemã. Suas vidas pacatas são completamente atormentadas quando duas crianças desaparecem misteriosamente e os segredos obscuros das suas famílias começam a ser desvendados.
Sabe aquele tipo de filme que você assiste e quando termina se sente burro por não ter entendido o que ele queria passar? Foi justamente o meu caso com Dark. 

Já passei por situações semelhantes com Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, Amnésia e um ou outro filme de Lars Von Trier. Filmes que precisei de mais de três ou quatros assistidas, além de discussões em fóruns, para entender o que o diretor queria que eu entendesse. Porque ainda tem isso... O que você interpreta de uma história não é exatamente o que deveria. A arte é sempre subjetiva, mas eu gosto de entender a visão de quem entrega uma proposta ousada, como foi o caso de Dark.



A história de Dark se concentra em alguns desaparecimentos em uma cidade alemã. Aliás, é uma série alemã, então se preparem para nomes esquisitos de lugares e de pessoas. Principalmente de pessoas, e essa foi uma das problemáticas que tive em específico com essa série. Tenho problemas com o que sai do meu cotidiano, e certamente que pessoas com consoantes demais no nome é complicado para mim. E devo alertar que a quantidade de personagens também pode confundir, ainda que eles não se percam na trama. São muitos, e em diferentes momentos "históricos", então sim, anotar esses nomes seria uma boa dica para uma segunda assistida.


Apesar das inúmeras comparações com Stranger Things, inclusive por parte da própria Netflix quando anunciou a série, falando que quem gostava de Stranger iria gostar de Dark e colocando fotos promocionais de grupos de adolescentes como chamariz, Dark segue caminhos diferentes dessa proposta. 
A coisa aqui é bem mais sombria do que em Stranger. Enquanto Stranger foca na nostalgia e amizade entre garotos, em Dark temos, a priori, o individualismo externalizando em ações aterrorizantes. Ainda que o sobrenatural seja um forte "horror" na série, são as ações das pessoas que realmente contam o terror dessa história.


O ritmo inicial é lento. Fato. Inevitável que seja. Você precisa entrar na história como o roteirista pensou nela. Conhecendo as famílias e entendendo como funciona a logística social dessas pessoas envolvidas. Como disse lá em cima, são muitas pessoas e diversas ligações necessárias de serem compreendidas com calma. Então tenham um pouco de paciência. É confuso, mas plausível.

Passou da primeira metade, você vai devorar o restante por pura curiosidade, e até por um pouco de asco com alguns personagens que lá no início você até gostava e que demora a acreditar que eles possam vir a fazer alguma coisa ruim. Acredite quando digo que não dá para sentir 100% nada aqui sem ter certeza de que não vai quebrar a cara lá na frente. Apesar de ter ficado horrorizada com uma ou duas atitudes, eu vi segurança nelas, saca? Tipo, um ser humano normal cometeria certos crimes pensando em um "bem maior" ou um "bem pessoal". É realista, e dou meus vários pontos por isso.


Não é spoiler que Dark vai trabalhar com passagens de tempo ficcionais. Tá logo ali em cima, no cartaz promocional da série. Mas não vou me atentar a isso porque acho que a máxima dessa série é você ir assistindo e pensando realmente como diabos aquilo seria possível e como afetaria outros momentos da linha de trama desses personagens. É a história da Teoria da Relatividade em relação ao destino. Que de alguma forma ele está escrito. Claro que aqui temos a dose máxima de ficção científica, mas uma dose banhada no que penso ser um realismo convincente nesse sentido.

Todo o clima de Dark, sejam as cores escuras em paisagens neutras do interior da Alemanha, ou roupas sem cores vibrantes, ou ainda os personagens quase tão dark quanto o nome da série, levam o expectador a sentir o peso dessa produção de maneira quase sufocante. É uma delícia o modo inteligente com qual criaram isso aqui. Da complexidade dos personagens e suas histórias individuais, ao que eles representam num todo. Porque de uma coisa eu tenho certeza, nada nem ninguém aqui foi jogado ao acaso. Então mesmo que você sinta que esqueceram personagem X ou Y, acredite que lá na frente eles farão uso dessa galera de maneira brilhante.

Se me perguntarem se eu gostei de Dark vou certamente demorar um pouco para responder. Não porque desgostei, mas porque acredito que seja o tipo de série a ser vista sozinho e com atenção, uma coisa que não consegui por causa das crianças, e isso prejudicou o meu entendimento do que acho que o roteirista queria me passar. Os embates filosóficos e científicos são grandes e importantes, e vez ou outra perdia um deles e precisava voltar. Por isso terminei de ver Dark em extrema confusão mental, até porque o final não é realmente fechado. Diversos pontos em aberto e necessários para compreender no que tudo vai findar, e isso é de explodir a cabeça.

Eu gostei da estética, eu amei os personagens e tenho um amor incondicional a "ideia" de Dark. Vou precisar rever com certeza, mas se em um primeiro momento ela me passou uma segurança de trama tão boa, penso que daí para frente a tendência é melhorar. Minha explicação é confusa? Pois veja só, espere ver a série toda para entender o que é confusão.

De qualquer forma, desejo viel glück (boa sorte) para vocês. E venham me procurar depois para contar o que acharam.

Resenha de "Origem" (Dan Brown)

Título: Origem
Autor: Dan Brown
Editora: Arqueiro (Cedido em Parceria)
Skoob: Adicionar

Sinopse: De onde viemos? Para onde vamos?Robert Langdon, o famoso professor de Simbologia de Harvard, chega ao ultramoderno Museu Guggenheim de Bilbao para assistir a uma apresentação sobre uma grande descoberta que promete "mudar para sempre o papel da ciência".
O anfitrião da noite é o futurólogo bilionário Edmond Kirsch, de 40 anos, que se tornou conhecido mundialmente por suas previsões audaciosas e invenções de alta tecnologia. Um dos primeiros alunos de Langdon em Harvard, há 20 anos, agora ele está prestes a revelar uma incrível revolução no conhecimento... algo que vai responder a duas perguntas fundamentais da existência humana.
Os convidados ficam hipnotizados pela apresentação, mas Langdon logo percebe que ela será muito mais controversa do que poderia imaginar. De repente, a noite meticulosamente orquestrada se transforma em um caos, e a preciosa descoberta de Kirsch corre o risco de ser perdida para sempre.
Diante de uma ameaça iminente, Langdon tenta uma fuga desesperada de Bilbao ao lado de Ambra Vidal, a elegante diretora do museu que trabalhou na montagem do evento. Juntos seguem para Barcelona à procura de uma senha que ajudará a desvendar o segredo de Edmond Kirsch.
Em meio a fatos históricos ocultos e extremismo religioso, Robert e Ambra precisam escapar de um inimigo atormentado cujo poder de saber tudo parece emanar do Palácio Real da Espanha. Alguém que não hesitará diante de nada para silenciar o futurólogo.
Numa jornada marcada por obras de arte moderna e símbolos enigmáticos, os dois encontram pistas que vão deixá-los cara a cara com a chocante revelação de Kirsch... e com a verdade espantosa que ignoramos durante tanto tempo.

Sabe quando você tem uma relação de amor e ódio com um autor? Sou eu com Dan Brown. Talvez mais amor do que ódio, afinal Brown me tirou de um período de fossa horrorosa alguns anos atrás, quando li Anjos e Demônios - que ainda é meu livro predileto dele. Mas depois de tantos livros lidos, eu peguei uma certa "birra" com algumas coisas relacionadas a escrita de Brown. 

Nesse livro temos de volta o maravilhoso Robert Langdon, meu professor de simbologia predileto. Dessa vez tudo gira em torno de uma descoberta do futurólogo Edmond Kirsch, que foi aluno de Langdon na faculdade, e agora como seu amigo, o convida para o que seria a maior descoberta científica de todos os tempos. As respostas para as perguntas "De onde viemos" e "para onde vamos". 

Só que algo acontece durante a apresentação que acaba com a revelação e coloca Langdon em uma caçada para descobrir o que Edmond sabia e revelar para o mundo, justamente como o amigo queria, esse segredo. 

Ao lado da administradora do museu e noiva do futuro rei da Espanha, e de um maravilhoso computador inteligente, Winston, Langdon vai transitar entre lugares pitorescos de Barcelona e visitar obras de artes um tanto diferenciadas em relação aos antigos livros dele. Tudo em prol da descoberta de Kirsch. 

Ok, então vamos !

O que me deixou bem surpresa a princípio foi que o autor trabalhou arte contemporânea com vontade. E eu que estava acostumada a arte antiga com Langdon, passei por uma aventura de descoberta impressionante com esse livro. 

Não gosto de arte moderna. O cara faz dois riscos em um quadro e diz que aquilo é arte e ganha milhões com ele. Mas daí o Winston - o tal computador inteligente - faz uma explicação maravilhosa sobre a arte de hoje em dia. Que está tudo no significado, e não na forma. Com esse pensamento, qualquer pessoa que faça os tais riscos pode ser artista se tiver uma puta explicação para eles. Então ser artista hoje em dia é só ter ideias criativas, mesmo que não saiba muito sobre forma, composição ou essas coisas que fizeram de Van Gogh e DaVinci artistas incríveis. Como uma pessoa aberta a ideias, aceito isso com dificuldade, mas aceito porque arte é algo bem subjetivo e sujeito a cada observador de maneiras diferentes. 

Para ler decentemente um livro do Brown, eu sempre recomendo o Google aberto. Em cinquenta páginas eu já tinha pesquisado o museu do começo da história e as diversas obras de arte e referências citadas nele. Ele faz com que o leitor amante de arte pesquise qualquer termo usado em suas obras. Não há como negar a capacidade do autor em inserir arte e acontecimentos históricos de forma incrível em suas tramas. Sou fã dele nesse aspecto. 

Origem foi um livro que dividiu muito os leitores. Ou dizem que é a melhor obra do Brown, e possivelmente a culpa seja da originalidade com que trata certas situações; ou dizem que foi o mais fraco, porque um leitor já habituado a sua obra não vê uma comparação justa entre Origem e Anjos e Demônios, por exemplo, que continua sendo meu livro predileto do autor. 

Brown também levanta aquela velha briga entre ciência e religião. O que me impressiona é que em nenhuma das vezes isso se torna cansativo. Tenho N problemas com os livros dele, mas nunca em relação as tramas principais. As tais perguntas que as obras tendem a responder. Também sou fã disso. 

Agora, não posso mentir que a fórmula Brown de escrever é extremamente irritante. Langdon tem que sempre estar junto de uma mulher bonita - como se elas fossem realmente necessárias - e os vilões tem sempre traços de humanidade que puxam para o castigo próprio. A punição por atos errados deles, ou de pessoas próximas a eles. 

Essa estrutura de trama é chata porque é previsível. Você já sabe o que vai acontecer, saca? E porque continuo lendo os livros? Simplesmente porque amo o Langdon, e porque a arte mostrada pela visão do autor é simplesmente libertadora. 

Eu senti que Langdon ficou bem de lado nesse livro. Como se fosse um coadjuvante da própria história. Entendo o que ele quis fazer, dando uma relevância necessária a Winston, mas Langdon ainda é a cabeça que salva igrejas e humanidades de extinção. 

Enfim, eu estou no grupo de pessoas que enxergou diversas falhas nessa história. Tem pontos interessantes? Sim, muitos, mas não é o melhor livro dele. Passa longe de ser. Como já comentei, Anjos e Demônios é a melhor coisa que o cara escreveu - para mim. Não sei se porque foi a primeira coisa que li dele, mas continua sendo minha obra favorita. 

Resenha de "As Coisas que Fazemos por Amor" (Kristin Hannah)

Título: As Coisas que Fazemos por Amor
Autor: Kristin Hannah
Editora: Arqueiro (Cedido em Parceria)
Skoob: Adicionar

Sinopse: “Kristin Hannah captura a felicidade e o sofrimento de uma família e prova mais uma vez por que é a estrela dos romances.” – Booklist“Este livro maravilhoso é um exemplo clássico das histórias tocantes e provocativas que são a especialidade de Kristin Hannah. A ternura e as complexidades dos personagens mexem com o nosso coração.” – Romantic Times
Caçula de três irmãs, Angela DeSaria já tinha traçado sua vida desde pequena: escola, faculdade, casamento, maternidade. Porém, depois de anos tentando engravidar, o relacionamento com o marido não resistiu, soterrado pelo peso dos sonhos não realizados.
Após o divórcio, Angie volta a morar na sua cidade natal e retorna ao seio da família carinhosa e meio doida. Em West End, onde a vida vai e vem ao sabor das marés, ela conhece a garota que mudará a sua vida para sempre.
Lauren Ribido é uma adolescente estudiosa, bem-educada e trabalhadora. Apesar de morar em uma das áreas mais decadentes da cidade com a mãe alcoólatra e negligente, a menina sonha cursar uma boa faculdade e ter um futuro melhor.
Desde o primeiro momento, Angie enxerga em Lauren algo especial e, rapidamente, uma forte conexão se forma: uma mulher que deseja um filho, uma menina que anseia pelo amor materno. Porém, nada poderia preparar as duas para a repercussão do relacionamento delas. Numa reviravolta dramática, Angie e Lauren serão testadas de forma extrema e, juntas, embarcarão em uma jornada tocante em busca do verdadeiro significado de família. 

Após seis anos de blog, cheguei a um livro que me tirou a capacidade de esquematizar uma resenha que caiba em sua grandeza. Não foi o melhor livro que li na vida, mas foi o que me fez chorar compulsivamente depois de 10 anos sem fazer isso com um livro. Então sim, ele merece todo o crédito e mais algum. 

Angie é uma mulher essencialmente triste. Tentou engravidar por anos, e depois de abortos e ter perdido um bebê após o nascimento, ela está em declínio, juntamente com seu casamento, que desceu ladeira gradativamente pelos acontecimentos. 

Quando Angie se separa de Conlam, ela resolve voltar para a cidade da família no interior, e restaurar a antiga grandeza do restaurante DeSaria, que está com eles há anos. Ocupar a cabeça com um novo projeto talvez não a faça pensar tanto nos bebês que perdeu e em sua incapacidade de ser mãe, uma coisa que ela tanto queria. 

Do outro lado temos Lauren, uma adolescente estudiosa e trabalhadora que vive com uma mãe que tem sérios problemas em aceitar ser mãe, e é totalmente relapsa com isso. Viciada em álcool e cigarros, incapaz de colocar dinheiro suficiente em casa, a mãe de Lauren não dá a mínima para a filha. 

É procurando um trabalho novo que Lauren e Angie viram amigas. E o que deveria ser uma relação exclusiva de trabalho, se torna uma amizade e um amor além do limite do que elas seriam capazes de imaginar. 

Olha, eu lendo o que já escrevi entendi como a sinopse desse livro é simples. Talvez eu não comprasse o livro por ela, e tudo bem, porque acredito que a mágica dessa história está não em "o que acontece", mas no "como acontece". 

Eu já tinha lido um livro da autora alguns anos atrás e lembro que gostei bastante, mas ele não me tocou como esse tocou. Nem de longe, e acho que essa questão de afinidade seja por conta do tema. Me identificava muito com Angie por essa questão de perder um filho e se sentir desestabilizada por muito tempo. Incapaz de aceitar que a dor dos outros possa ser maior do que a minha. Hoje minha filha teria dez anos e ainda me sufoca a ideia de pensar nela. É o tipo de dor que jamais vai embora, por mais criativas que sejam nossas ideias de fazê-la sumir. 

Mas também me identificava com Lauren, porque eu na idade dela era igualzinha. Sonhos grandes, dificuldades familiares, e uma penca de coisas que uma garota de dezessete anos não deveria passar. Então em suas cenas eu me sentia perdida, como me sentia pesada nas cenas que eram só de Angie, e aí eu culpo a brilhante escrita da autora. Ela transporta o sentimento do personagem com facilidade para o leitor. Ao ponto das coisas se embaralharem  e você não saber o que é seu e o que é daquela pessoa em cena. 

A maior coisa nesse livro são as grandezas de relacionamentos. Seja o das irmãs e mãe DeSaria, como de Angie para com Lauren. Ou de Lauren com Conlam, ou ainda de Lauren com seu namorado, David. Até quando eles fazem coisas idiotas, dá para sentir a intensidade do amor deles. E amor, meus caros, por mais belo que seja, também machuca. Na verdade as vezes machuca mais do que certas palavras de ódio. 

Eu tive cenas de precisar fechar o livro para não me debulhar em lágrimas, visto que a maioria dele eu li em períodos vagos do trabalho, e ia pegar mal se alguém chegasse e me visse aos prantos. Logo eu, que estava semana passada mesmo me vangloriando que não choro com livros, fiquei de olhos inchados de tanto que chorei. Pela identificação com os personagens, pela inveja de uma família estruturada... Não sei. O fato é que o livro me pegou de jeito. 

Devo salientar que não é um livro triste, ok? Só um livro emocionante. Tem passagens difíceis, mas necessárias. Contudo não é nada com gente doente - já digo logo porque detesto ler livros de pessoas doentes. Não precisa ter gente morrendo num livro para ele nos fazer chorar. Emoção também nos faz chorar, e dramas familiares são carregados de emoção. Passagens bonitas que nos deixam sem ar, mesmo a mais boba delas. Ver caridade se transformar em afeto é uma das coisas mais poderosas da vida, e aqui isso transborda nas páginas. 

Enfim, eu indico esse livro de olhos fechados e ainda pisando em brasas. Dentro da sua categoria, foi o melhor livro do ano, sem dúvidas. 


Burlando o bloqueio criativo


Uma coisa que aprendi nos meus anos de escrita, é que não há como se livrar dos eventuais bloqueios criativos que possam vir a acontecer. E não há choro ou desespero nenhum no mundo que o faça ir embora. 
A primeira atitude a fazer é não culpá-lo por estar atrasando o seu projeto. Problemas eventuais em nossas vidas costumam nos travar, mas não é certo deixar de cumprir prazos e metas por causa de um bloqueio criativo. Você é um escritor, ora bolas! Seja criativo e o encare como um dragão impedindo o resgate do amado ou só como um amigo, que vez ou outra vai dar as caras, e que você precisa aprender a conviver com isso sem se tornar ocioso e ter pena de si mesmo por estar passando por uma fase ruim. Viver é uma merda! Aceite isso que fica mais fácil. 

Aqui vou mostrar para vocês as minhas técnicas para burlar essa sensação de que estou bloqueada. Se vocês procurarem enxergar como um desvio de rota, talvez fique mais fácil do que um enfrentamento cara a cara com o bloqueio. Comigo funciona. 

1- Se desligue de todos as redes sociais

Você escolheu ser escrito, então compreenda que esse é um trabalho solitário. No máximo você precisa de alguém para revisar ou avaliar seu texto, não alguém para bater papo enquanto o está criando. Então se desligar do mundo é sua primeira tarefa. Não dá para criar uma trama interessante para os seus protagonistas se você estiver vendo vídeos de gatinhos fofos no Facebook. 

2- Arranje um lugar todo seu

Esse tem muita ligação com o primeiro item. Se você desligou todos os aparelhos da casa, mas ainda está desconfortável, talvez seja hora de criar um canto para você enquanto escritor, ou adaptar algo que já exista no ambiente onde vive. 
Conheço pessoas que conseguem trabalhar tranquilamente em lugares públicos. Cafés ou praças. Pessoalmente não consigo. Eu preciso do máximo de silêncio possível para escutar as vozes que sopram em minha cabeça. Lugares públicos são muito informativos, seja de pessoas, cores, sons... É inevitável que eu vá me desconcentrar e passar a usar o lugar como laboratório, e não como lugar para criar. 
Isso vai muito de como você processa seu trabalho. Melhor com barulho? Ótimo! Precisa de silêncio? Compre fones de ouvido que abafe ruídos externos e procure aquele canto da casa que só você vai. Se possível, ponha uma placa bem grande "Proibido entrar sob pena de morte" na porta, e aproveite. 
Como tenho filhos pequenos, acabo adaptando todos os lugares da casa para conseguir escrever. Se minha filha dorme no quarto, eu vou para a cozinha. Se minha mãe está na cozinha vendo TV, eu corro para a sala. Juro que já sentei até na área descoberta do banheiro para escrever. O importante é você se sentir confortável com seu ambiente de trabalho. 

3- Busque o que te inspira 

Como citei acima, eu sou uma autora movida a observação. Quando estou passando por algum tipo de bloqueio, sinto que é a hora de pegar meu caderninho de ideias, me afastar da minha rotina diária e analisar pessoas diferentes em lugares diferentes. Se isso não me ajudar a voltar para a história que já estava trabalhando, no mínimo vai me dar ideias novas para personagens novos, ou linhas de tramas diferentes. 
Chamo esse ato de observar e anotar de laboratório. Se sento em uma praça que nunca fui e tem um senhor sozinho, jogando milho para pombos ao redor (mais clichê impossível), eu começo anotando como ele é fisicamente, e então passo para como está seu semblante naquele instante. Com isso em mãos, imagino um motivo para ele estar ali, e daí saiu criando toda uma historinha no caderno em formato de tópicos. Não uma narrativa propriamente, mas questionamentos pontuais acerca de questões que poderiam me ajudar numa narrativa, caso ela se desenvolvesse
Observar pessoas é uma das coisas mais ricas para escritores. 
4- Ouça música 

Não conheço uma única pessoa que não goste de ouvir música. Sério, nenhuma mesmo. 
Pode ser que você curta um estilo completamente diferente do meu, mas certamente gosta de alguma coisa. 
Acredito que música seja a única forma de arte que é emocionalmente universal. É mais provável que alguém não goste de esculturas e teatro do que de música, não é? 
Pois bem, sabendo disso eu sempre monto uma playlist para os livros que escrevo, mesmo que eles não envolvam música. Eu costumo me inspirar na emoção que ela está passando para mim e deixo que aquilo esparrame num capítulo. 
Lembro que uma vez tinha travado em uma cena pesada de Improváveis Deslizes. Estava me consumindo escrevê-la e eu percebi que precisava parar. Então peguei meu celular, fui até o quintal, sentei na escada e fiquei passeando nas músicas do cartão de memória do telefone. Foi quando ouvi "A MÚSICA". Aquela que salvou o capítulo para mim naquele momento, porque tinha o tom certo de tristeza, melancolia e sufocamento que eu precisava. Voltei correndo e o acabei em menos de duas horas.
Não é a letra - e as vezes até é - mas a emoção necessária naquele momento, e em algumas situações isso basta para sair de um bloqueio. 

5- Não se prenda a detalhes

Vejo muita gente que quer ser escritor, mas que não consegue começar porque acha que precisa estudar milhões de livros de teorias antes de dar o primeiro passo. Acredite quando digo que a escrita é um dom. 
É possível que você estude muito e que se torne um escritor mediano que se apega a detalhes de técnica e gramáticas; mas se você realmente tiver talento, esses estudos vão ser apenas o complemento de um cerne que já está lá. Não dá para ser um puta escritor se não houver talento para isso, mesmo com toda técnica do mundo. E também não dá para ser um puta escritor se não estudar a escrita, mesmo com talento. 
Não estou dizendo que não é preciso trabalhar duro. Sim, escrever é acima de tudo para quem é leitor e rala para cacete nisso. É inevitável que você leia bem para escrever bem, e quando falo em ler bem me refiro a qualidade do que se lê, não a quantidade. 
Se você ler vinte livros de teoria, quando for para a prática, vai tentar se firmar em todas as 500 teorias que viu antes mesmo que acabe o primeiro parágrafo. Gente, vocês não vão para lugar nenhum fazendo isso, ok? Tem que sentar e escrever, apenas isso. Escreva merda, escreva merda errada. Muita merda errada. Porque quando você for parar para lapidar o teu texto, 80% dele vai ser modificado, mas a base inteira vai estar lá, e com as ideias genuínas que estavam na sua cabeça sem estar preso as regras. 
Eu só fui ler livros de teoria depois de dois livros escritos. Não por achar que precisava delas para escrever alguma coisa, mas porque queria crescer, e só se cresce em algo com estudo. Então recomendo começar, e só depois pensar se aquela concordância está de acordo com a gramática, tudo bem? 

6 - Toda e qualquer leitura é válida

Você quer escrever um romance de época, mas é um leitor essencialmente de fantasia? Vai encontrar alguma dificuldade, e isso é um fato. 
Eu sou uma escritora essencialmente de romances, mas eles são o que menos leio, porque apesar de amar escrever, não gosto muito de ler sobre eles. Vai entender!
Preciso estar sempre renovando minhas ideias, mas não ler tanto que possa sentir estar copiando o que vejo outras autoras falando. Por isso, cuidado! 
Coma o gênero que você escreve por alguns meses. Espere a ideia assentar na sua cabeça, e daí escreva teu livro enquanto lê outras coisas. Isso vai enriquecer sua história e a você, como pessoa. Saia sempre da sua zona de conforto, ou será só mais um cara com uma história escrita e engavetada numa estante velha. 


7- Esse caminho não está legal? Pare e tente por outro 

Se você travou em uma cena da história que deveria ser um diálogo forte de uma briga entre pai e filho, e seu POV é o do filho, então talvez seja a hora de você abrir um arquivo diferente do computador e tentar narrar aquela cena pelo ponto de vista do pai. Ou do carteiro que viu a briga pela janela, ou do cachorro que lambia a pata e olhava tudo do canto da sala. Só como um teste, não precisa mudar sua história inteira, beleza? 
Ser escritor é sempre experimentar. 
Finja que você é um diretor de arte de cinema levando a câmera nas costas em uma cena desse tipo. Colocar ela na cara do filho seria o lógico, mas pense em quão rico ficaria o texto colocando-a como se fosse os olhos do cachorro - querendo carinho do menino, e que o pai fosse embora e parasse de berrar; ou do carteiro - se perguntando se deveria chamar a polícia ou bater na porta para entregar a conta de luz invés de enfiar na caixa do correio. 
O que vai engrandecer uma cena, é a densidade de detalhes que você acrescenta a ela. E se está difícil seguindo um padrão, então mude-o! Se a gente de entedia pegando o mesmo caminho para trabalhar todos os dias, nossas histórias se entediam de receber o mesmo angulo também. 

8- Tempestade de ideias (Brainstorming)

Brainstorming é uma técnica bem conhecida por equipes de publicidade na intenção de criar ideias novas e diferentes para gerar conteúdos inovadores. 
Como uso ativamente o Brainstorming? Simples, promovendo encontros com meus leitores. 
Quando comecei a escrever A Mais Bela Melodia, eu tinha uma leve ideia do que fazer com os protagonistas até o fim do livro. Mas tudo mudou quando passei a postar no Wattpad, porque os leitores criavam suas próprias teorias, amores e raivas pelos personagens, e isso ia me dando outros pontos de vista que possivelmente não havia parado para pensar antes desses debates. 
Geravam discussões, e de todas elas eu tirava as coisas que eu sabia que podia aproveitar sem perder a essência dos personagens. O final foi completamente modificado, e não tenho vergonha em dizer que foi movido aos leitores, porque eu quem escrevi o livro, e se escrevi daquele modo, foi porque achei que fazia sentido. Usei das tempestades de ideias deles para melhorar as minhas ideias empacadas e rasas. 
É como se fosse um grande jogo de RPG. Um escritor é Deus com uma vida em uma balança, pensando se ferra com ela de vez ou a melhora. Os leitores são o juri justo e ponderado - ou não. hehe. O fato é que essa é uma boa técnica para sair do marasmo da escrita solitária. 

9 - Mostre as pessoas a sua história

Como falei, essa interação é bem importante para o escritor. Tanto pelas ideias que surgem, como pela cobrança para que você não pare. 
Quando eu me comprometo em lançar um capítulo por semana no Wattpad, por exemplo, eu tento cumprir isso. Vou trabalhar a semana inteira, lutando contra os bloqueios, e trato de escrever de pouco em pouco até completar o capítulo. Eu me comprometi com aquelas pessoas. E se isso for a única forma de fazer com que meu livro seja escrito em 5 meses invés de 2 anos, então acho uma ideia válida. 
A unica coisa negativa - para mim - nessas plataformas é unicamente a impossibilidade de escrever seu livro em concursos literários pelo Brasil, por perder o inédito, mas se você está seguro quanto a isso, e garanto que é um ótimo recursos de conquistar leitores e amigos escritores, então siga firme. Entenda qual o teu público e o que pode fazer por ele. 

10 - Prazos e metas

Essa é a parte complicada porque exige que você seja uma pessoa um tanto quanto organizada. 
Todo mundo que me conhece sabe que trabalho com roteiro. Escrevo o roteiro daquele livro inteiro antes de começar, como se fosse um roteiro de cinema, e a partir disso divido pelas semanas que vou  precisar para concluir. 
Se o livro tem 40 capítulos, em média preciso de 40 semanas para fazer. Pode ser que faça em mais, ou em menos, mas essa é minha meta. Sei quando um capitulo vai comer mais tempo, e quando não vai ter tanta coisa assim e posso fazer dois na semana. Também levo em conta uma semana tribulada, como festas ou vésperas de prova do filho. É necessário um calendário e paciência para construir esse gráfico e mapa menta. 
Claro que a história muda muito do início até o fim em relação ao roteiro, mas a base dele está lá. Só trabalho com o tempo que tenho em cima dela. 
Mas se você não trabalha com roteiros na hora de escrever, pode tentar por em meta um capítulo por semana e seguir daí. Não poderá dizer quando vai começar, mas pelo menos tem uma meta para se guiar. 

Mas olha, se você aplicou todas essas técnicas e ainda se sente bloqueado, talvez seja a hora de parar por algumas semanas e se ocupar com outras coisas. Uma viagem, uma maratona de séries no Netflix (Stranger Things, cof! cof!) ou ver os filmes do Woody Allen. Muda a sua rotina e deixa a história decantar. Vocês vão ver que ela vai te guiar para onde parou. É belo e natural esse processo. Não se desespere! 

Até a próxima! 

XOXO